Quebra-cabeças


Desenhamos a rotina dos nossos filhos mais longa do que a nossa. E ao final de um dia, conseguimos tempo para chegar até eles. Escola integral e diversas atividades extras se alternam nas tardes de segunda à sexta compondo um mágico quebra-cabeças que muda a cada ano.

Ano novo é tempo de recomeçar. Um recomeço com algumas facetas. Além das clássicas promessas que fazemos para nós mesmos buscando mais equilíbrio e conquistas para o novo ciclo, há também o janeiro do sufoco. Traduzido para as mães em material escolar, etiquetagem, uniformes, etiquetagem, angústia até a definição da nova turma dos filhos, fila de espera para as atividades esportivas e culturais e o encaixe do transporte escolar para filhos em idades diferentes e com horários de saída também diferentes. Um novo quebra-cabeças de 1.000 peças é colocado à nossa frente. E ele não pode ser montado aos poucos com o prazer da revelação de cada uma de suas imagens. O tempo urge.


Trabalhei por mais de 30 anos em grandes empresas, envolvida em rotinas intermináveis. E nos últimos 12 anos montei os mágicos quebra-cabeças de janeiro, acomodando os horários dos meus filhos aos meus. Escolhas criteriosas e apoio em casa foram fundamentais para que o mercado de trabalho não sentisse o peso deste segundo projeto.  


Algumas vezes surgiram aqui em casa conversas sobre mudar a relação com o trabalho de uma forma que fosse possível me ocupar mais da família. E a verdade é que eu nunca consegui abrir mão da comunicação, uma paixão que fez de mim o que sou. Egoísmo? Não sei, meus filhos gostam bastante de suas loucas rotinas.


O tempo passa, surgem novas realidades, o mercado se reinventa e, de repente, a relação que nós temos com ele muda também. Um desencontro diante do desequilíbrio pelo qual passou o digital me levou para casa, como fez com inúmeros profissionais nos últimos dois anos. E diante de uma crise apenas oportunidades efêmeras se apresentaram.


A volta ao lar e à família em tempo integral tem um quê de resgate tão necessário para recarregarmos energia e seguirmos para a próxima fase. Mas, neste momento, onde está a família? Ocupada, sim ocupada com a densa rotina que eu mesma lhes impus. Uma sensação de injustiça paira no ar. Recheei tanto o dia a dia dos meus filhos que quando estou desocupada eles não têm tempo para mim. Um desencontro tão descabido e, ao mesmo tempo, tão real. 


Dois cursos realizados, dois freelas entregues, um livro infanto-juvenil escrito, aulas diárias de ginástica e em um piscar os olhos passaram-se seis meses. 

Voltei a trabalhar em janeiro em um projeto diferente. E o meu quebra-cabeças 2024 está entregue. Bora encarar o ano pois ele não tem que começar após o carnaval, mesmo que este esteja chegando mais cedo!

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