Um dia como outro qualquer... no mercado
Ela acorda cedo e vai ao mercado, acompanhada de sua agitação matinal que já tem elencada a sequência de atividades que manterão o dia cheio até praticamente a chegada de um novo dia.
Tem na cabeça os tempos e movimentos necessários para atender a cada um dos temas. Levar o filho no treino: tempo de ida, tempo de recomendações e tempo de volta. Mercado: tempo de ida, tempo de permanência e tempo de volta. Organização das atividades do lar. Horário comercial parte 1 e suas reuniões. Almoço, almoço com crianças de férias. Horário comercial parte 2 e seus desafios. Alinhamentos regulares em seus inúmeros grupos de WhatsApp capazes de gerar uma enorme sensação de pertencimento à família, à escola dos filhos, ao clube, ao mercado, às famosas listas de desapegos e as amizades queridas muitas vezes sustentadas apenas por alguns emojis. Jantar das crianças, jantar e tempo com as crianças ao final do dia. Espiada nos acontecimentos do mundo, banho e por fim algumas horas dedicadas à leitura noturna.
Chega ao mercado alguns minutos após o planejado e avalia a concorrência. Homens e mulheres em trajes de ginástica, profissionais repondo mercadorias, assistentes do lar com suas enormes listas de compras e idosos em seus passeios matinais se aglomeram pelos estreitos corredores tornando o ritmo daquela atividade mais lento do que o desejado.
Circula para lá e para cá, encontrando com eficiência os itens necessários. E em uma curva bem pensada encontra um corredor quase vazio. Em sua extremidade um rapaz faz a reposição de pães em uma prateleira baixa.
- Por favor, posso dar uma passadinha por aqui., diz ela.
- Claro minha jovem., responde um rapaz que não deveria ter nem 30 anos se levantando para dar passagem ao carrinho.
- Obrigada e obrigada pelo jovem., responde ela.
Ele sorri e diz:
- Por nada minha jovem.
Ela esquece toda a sua agitação diante da gentileza, pouco vista nos dias de hoje, e responde:
- A jovem de 50 anos agradece uma vez mais.
E para sua surpresa uma nova resposta:
- Que nada, está batendo em muita moça!
Oi… Por isso ela não esperava. Ela acelera o passo em direção ao caixa e deixa aquele corredor para trás achando que a conversa tinha ido longe demais.
Um sorriso ensaia aparecer no rosto da jovem de 50 anos que já nem leva mais em conta o atraso no mercado e seu efeito dominó.
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